A clínica no espaço virtual: A minha experiência com a terapia on-line
- Leandro Monteiro
- 5 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 10 de abr.
Há alguns anos, se me dissessem que grande parte dos meus atendimentos seria feita através de uma tela de computador, eu provavelmente seria cético. Historicamente, existia uma resistência no Brasil à ideia de terapia on-line, sob a justificativa de que seria impossível estabelecer uma relação terapêutica profunda sem a linguagem corporal completa presencial. No entanto, a regulamentação do Conselho Federal de Psicologia pela Resolução Nº 11/2018 e, posteriormente, a pandemia da COVID-19, transformaram o espaço virtual em uma realidade concreta e indispensável na minha rotina.
A grande dúvida que eu e muitos colegas tínhamos era: a transferência, o laço fundamental entre terapeuta e paciente, sobrevive no ambiente on-line? A minha experiência clínica, corroborada por pesquisas na área, me provou que sim. A permanência do laço transferencial no ambiente virtual é totalmente possível. A única regra deixada por Freud para o tratamento analítico é a associação livre, e os sintomas e as emoções continuam se manifestando independentemente de o paciente estar fisicamente no meu consultório ou na sala de estar dele.
É verdade que sinto falta de algumas dimensões corporais que o encontro presencial proporciona, já que o inconsciente também se manifesta no corpo e nos pequenos gestos. Contudo, na clínica on-line, a voz se torna o meu principal instrumento de escuta e análise. As hesitações, as entonações e os lapsos na fala do paciente fornecem um material riquíssimo sobre suas questões emocionais. Os afetos, afinal de contas, transcendem o corpo.
Para muitos dos meus pacientes, a modalidade remota trouxe uma flexibilidade libertadora. Eles podem fazer terapia no horário de almoço, após colocar os filhos para dormir, ou mesmo quando estão viajando. Aprendi que o "setting terapêutico" não é apenas o espaço físico do meu consultório; ele é, na verdade, um espaço simbólico composto pela relação que construo com o meu paciente, onde circulam os nossos afetos, não importa o meio tecnológico utilizado.


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